Riscos psicossociais são perigos que nascem da forma como o trabalho é planejado, organizado e gerido, como sobrecarga, metas impossíveis, falta de apoio da liderança, assédio e mudanças mal conduzidas. Eles podem desencadear ou agravar estresse, esgotamento, depressão e até dores físicas. Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 exige que as empresas os identifiquem, avaliem e controlem no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Nos 24 anos em que trabalhei em RH, vi times adoecerem sem que ninguém usasse a palavra risco. A gente chamava de fase puxada, de cliente difícil, de gestor exigente. O atestado chegava, alguém cobria a mesa de quem saiu e o jeito de trabalhar continuava igual. A NR-1 deu nome a esse padrão e passou a tratá-lo como a empresa já trata um piso escorregadio.
O que são riscos psicossociais?
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) define os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho como perigos que vêm de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho. Segundo o guia que o ministério publicou em 2025, eles podem gerar efeitos psicológicos, físicos e sociais, como estresse, esgotamento, depressão e distúrbios osteomusculares (DORT).
Duas expressões dessa definição mudam a forma de olhar para o tema. A primeira é “relacionados ao trabalho”, porque a vida pessoal de cada um fica fora do gerenciamento de riscos. A segunda é “organização”. O foco está nas condições em que as pessoas trabalham, e não nos sintomas de cada uma. O RH não precisa descobrir quem anda ansioso. Precisa descobrir o que, no jeito de trabalhar, tende a deixar as pessoas ansiosas.
Ajuda também separar fator de risco e risco. O fator é o perigo, como a sobrecarga. O risco combina a gravidade do que ele pode causar com a chance de isso acontecer naquele grupo. Essa conta é feita na avaliação de riscos psicossociais, que explico passo a passo em outro artigo.
Fatores de risco psicossociais: os 13 exemplos do MTE
O guia do MTE traz uma lista de 13 fatores. Ela é exemplificativa, como o próprio ministério reforçou nas perguntas e respostas sobre a NR-1 de 2026. Quando converso com líderes, agrupo os 13 em cinco blocos, porque fica mais fácil reconhecê-los na rotina.
| Bloco | Fatores da lista do MTE | Como aparece num time |
|---|---|---|
| Demandas | Excesso de demandas (sobrecarga) e baixa demanda (subcarga) | Hora extra virando regra, almoço na frente da tela, profissional experiente sem tarefa que use o que ele sabe |
| Controle e papel | Baixo controle no trabalho ou falta de autonomia, baixa clareza de papel ou função | Prazo decidido sem ouvir quem executa, analista que atende dois gestores com prioridades opostas |
| Relações e liderança | Falta de suporte, maus relacionamentos, baixas recompensas e reconhecimento, baixa justiça organizacional | Gestor que só aparece para cobrar, promoção que ninguém entende, esforço extra que passa em branco |
| Violência | Assédio de qualquer natureza, eventos violentos ou traumáticos | Piada recorrente com a mesma pessoa, grito em reunião, cliente agressivo, assalto numa loja |
| Gestão e contexto | Má gestão de mudanças, trabalho em condições de difícil comunicação, trabalho remoto e isolado | Reestruturação anunciada por e-mail numa sexta à tarde, pessoa em home office que passa dias sem falar com o time |
O assédio, aliás, chegou à NR-1 antes. Em 2022, a Portaria MTP nº 4.219 incluiu na norma medidas de prevenção e combate ao assédio sexual e às demais formas de violência no trabalho para as empresas obrigadas a ter CIPA.
Riscos psicossociais no trabalho: exemplos do dia a dia
Na lista, os fatores parecem abstratos. Na rotina, eles aparecem em decisões pequenas, quase sempre tomadas com boa intenção.
Pense num time comercial que bateu a meta do trimestre. A diretoria sobe a meta seguinte, mantém o mesmo número de pessoas e corta a verba de viagem. Ninguém gritou com ninguém, e ali estão a sobrecarga, o baixo controle e, se o esforço anterior não for reconhecido, a baixa recompensa.
Ou uma área de tecnologia em que o líder responde mensagens às onze da noite. Ele nunca pediu resposta naquele horário, mas o time entende o recado e passa a dormir com o celular na mão.
O guia do MTE traz um exemplo parecido, de um escritório com 19 trabalhadores em que as equipes faziam hora extra com frequência e muita gente pulava o intervalo de refeição. O fator identificado foi a sobrecarga, e não havia medida de prevenção nenhuma. Nos três casos, o problema está no desenho do trabalho, e a solução precisa passar por ele.
Por que os riscos psicossociais entraram na NR-1
A NR-1 reúne as disposições gerais de segurança e saúde no trabalho e as regras do gerenciamento de riscos ocupacionais, o GRO. A Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, deu nova redação ao capítulo 1.5. O texto passou a dizer que o GRO deve abranger os fatores ergonômicos, “incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho” (subitem 1.5.3.1.4).
O guia do MTE lembra que a redação anterior já mandava gerenciar todos os riscos ocupacionais. A mudança deu ênfase ao tema e acabou com a dúvida. A vigência, prevista para maio de 2025, foi adiada pela Portaria MTE nº 765, de 15 de maio de 2025, e o novo capítulo entrou em vigor em 26 de maio de 2026.
Os números explicam por que o assunto chegou à norma. Nos dados de acidentes de trabalho de 2022 citados pelo MTE, ansiedade, depressão e reações ao estresse grave somaram 8,35% dos adoecimentos ocupacionais, atrás só da dor nas costas. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, 15,66% a mais que em 2024. Nem todos têm relação com o trabalho, mas o volume mostra o tamanho da conversa.
E a fiscalização? Nas perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5, o MTE informou que as disposições novas seguiriam o critério de dupla visita. Nos 90 dias seguintes à entrada em vigor, a inspeção daria prioridade a orientar e notificar. Depois disso, a empresa que descumprir as obrigações pode ser autuada. Esse intervalo já terminou.
Escrevo como psicóloga e executiva de RH, e não como advogada. O que está aqui é a minha leitura da norma e dos materiais oficiais do MTE. Para saber como cada exigência se aplica à sua empresa, converse com o SESMT, com quem responde pelo PGR e com a sua assessoria jurídica.
O que a NR-1 passou a exigir na prática
Os fatores psicossociais entram no mesmo processo que a empresa já usa para ruído ou trabalho em altura. Ela identifica os perigos, avalia cada risco, registra tudo no inventário do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), monta um plano de ação com prazo e responsável e acompanha se as medidas funcionam. Os trabalhadores precisam participar e ser consultados sobre como percebem os riscos (subitem 1.5.3.3). A ligação com a NR-17, de ergonomia, também é obrigatória, por meio da Avaliação Ergonômica Preliminar. O passo a passo, com o papel do RH, da liderança e do SESMT, está no artigo sobre como fazer a avaliação de riscos psicossociais.
Sinais que o RH pode observar antes de qualquer questionário
Boa parte das pistas já está nas mãos do RH. O guia do MTE sugere reunir, na preparação, o registro de afastamentos, as Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) e os indicadores do PCMSO. Eu costumo cruzar esses dados com o que o RH acompanha no dia a dia.
- Afastamentos e atestados concentrados. Quando os atestados por saúde mental se repetem num setor ou sob o mesmo gestor, a causa dificilmente é individual.
- Hora extra e intervalo ignorado. Banco de horas que só cresce e gente almoçando na frente do computador apontam para sobrecarga.
- Saídas e pedidos de transferência. Rotatividade acima da média da empresa e entrevistas de desligamento que repetem a mesma queixa merecem atenção.
- Canal de denúncia e CIPA. Relatos de assédio, conflito ou tratamento desigual mostram onde a convivência adoece, sobretudo quando o mesmo tema volta.
- Silêncio nas reuniões. Um time que parou de discordar e de trazer problemas pode ter aprendido que falar custa caro.
Nenhum desses sinais prova, sozinho, que existe um risco. Eles mostram onde olhar primeiro, e o guia admite começar por um setor piloto, desde que depois a avaliação alcance a empresa inteira. Quando o sinal vem da liderança, como no esgotamento profissional em líderes, o cuidado é o mesmo, olhar também para as condições do cargo.
Se o RH perceber alguém em sofrimento intenso, o caminho é acolher e encaminhar para um profissional de saúde, sem tentar resolver sozinho. Em momentos de crise, o CVV atende pelo telefone 188. Em emergência, ligue para o SAMU, no 192.
Como a Evonce trabalha esse tema
Na Evonce, a gente usa o Harmony Leadership Strategy®, a metodologia que eu idealizei a partir de pesquisas sobre clima organizacional e da prática em grandes empresas. Ela combina um assessment de riscos psicossociais, uma devolutiva consultiva com sugestão de plano de ação e a capacitação de líderes e RH para levar as mudanças à rotina dos times. Os cinco pilares do assessment (clareza, autonomia, equilíbrio, ética compassiva e sustentação) conversam com vários fatores da lista do MTE, como metas, carga mental, respeito e reconhecimento.
O assessment não substitui o PGR. O programa continua sendo da empresa, conduzido por quem ela designar, e o que a gente entrega serve de insumo para essa gestão. Também não fazemos atendimento clínico. Os formatos estão na página NR-1 e riscos psicossociais.
Perguntas frequentes
O que são riscos psicossociais no trabalho?
São perigos que vêm da forma como o trabalho é concebido, organizado e gerido, como sobrecarga, falta de autonomia, falta de apoio, assédio e mudanças mal conduzidas. A NR-1 manda gerenciá-los como qualquer outro risco ocupacional.
Quais são exemplos de riscos psicossociais?
O guia do MTE lista 13, entre eles excesso de demandas, baixo controle no trabalho, falta de suporte, baixas recompensas, assédio, má gestão de mudanças e trabalho remoto e isolado. A lista é exemplificativa, e cada empresa pode encontrar outros fatores na própria realidade.
Qual a diferença entre riscos psicossociais e saúde mental?
Os riscos psicossociais estão nas condições de trabalho, e a saúde mental está nas pessoas. A NR-1 pede que a empresa avalie e corrija condições como metas, ritmo, apoio e relações, sem avaliar a saúde de cada empregado.
Desde quando a NR-1 exige a gestão de riscos psicossociais?
Desde 26 de maio de 2026, quando entrou em vigor o capítulo 1.5 com a redação da Portaria MTE nº 1.419/2024, depois do adiamento feito pela Portaria MTE nº 765/2025. Nos primeiros 90 dias, valeu o critério de dupla visita, com foco em orientação.
Toda empresa tem riscos psicossociais?
Não necessariamente, segundo o próprio guia do MTE. A empresa só sabe depois de fazer a identificação de perigos. Pelas perguntas e respostas do ministério, um inventário sem risco psicossocial pode ser aceito se o processo que levou a essa conclusão for bem fundamentado.
Quer entender como mapear esses fatores nos times da sua empresa? Conheça o Harmony Leadership Strategy®, a nossa metodologia para a NR-1.
Se preferir começar por uma conversa sobre o tamanho da operação, as áreas envolvidas e o prazo, fale com a equipe da Evonce.
Fontes
- Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), página oficial atualizada em 6 de agosto de 2026.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, nova redação do capítulo 1.5 da NR-1.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria MTE nº 765, de 15 de maio de 2025, prorrogação do início da vigência do capítulo 1.5.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Brasília, 2025.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1 (GRO/PGR), 1ª rodada, 30 de abril de 2026.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Inclusão de fatores de risco psicossociais no GRO começa em caráter educativo a partir de maio, 24 de abril de 2025.
- Ministério da Previdência Social, via Agência Gov. Previdência concede 546.254 auxílios por transtornos mentais e comportamentais, 28 de janeiro de 2026.